Atenção: este classificador é uma ferramenta de apoio clínico. O diagnóstico de hipertensão arterial requer confirmação em pelo menos duas ocasiões distintas, avaliação clínica completa e consideração do contexto individual do paciente.
A classificação dos níveis de pressão arterial varia conforme a população avaliada: para adultos, aplica-se a tabela baseada em valores absolutos definidos pelas Diretrizes Brasileiras 2020. Para crianças e adolescentes, a classificação é determinada por percentis ajustados para sexo, idade e percentil de estatura. Gestantes e idosos possuem critérios e metas específicos.
A classificação a seguir aplica-se a adultos com 18 anos ou mais, sem uso de medicamentos anti-hipertensivos, baseada em valores obtidos no consultório em condições adequadas de aferição. O diagnóstico de hipertensão requer confirmação em pelo menos duas consultas separadas, exceto nos casos de PAS ≥ 180 mmHg e/ou PAD ≥ 110 mmHg, nos quais o diagnóstico pode ser imediato.
| Classificação | PAS (mmHg) | PAD (mmHg) | Conduta recomendada | |
|---|---|---|---|---|
| Ótima | < 120 | e | < 80 | Manutenção do estilo de vida saudável; reavaliação conforme rotina clínica. |
| Normal | 120 – 129 | e/ou | 80 – 84 | Orientação sobre hábitos de vida; reavaliação em 1 ano. |
| Normal-alta | 130 – 139 | e/ou | 85 – 89 | Modificação do estilo de vida; reavaliação em 6 meses. Tratamento medicamentoso indicado em pacientes com doença cardiovascular estabelecida ou risco cardiovascular alto. |
| Hipertensão estágio 1 | 140 – 159 | e/ou | 90 – 99 | Confirmar o diagnóstico em 1 a 3 meses; estratificar o risco cardiovascular global; iniciar modificação do estilo de vida; avaliar indicação de terapia medicamentosa. |
| Hipertensão estágio 2 | 160 – 179 | e/ou | 100 – 109 | Confirmar o diagnóstico em até 1 mês; tratamento medicamentoso geralmente indicado; investigar lesão de órgão-alvo. |
| Hipertensão estágio 3 | ≥ 180 | e/ou | ≥ 110 | Confirmar imediatamente e iniciar tratamento; excluir emergência ou urgência hipertensiva; investigar causas secundárias. |
| Hipertensão sistólica isolada | ≥ 140 | e | < 90 | Forma predominante em idosos, associada à rigidez arterial; classificar por estágio conforme o valor da PAS; confirmar e avaliar tratamento individualizado. |
A pressão arterial (PA) é a força exercida pelo sangue contra as paredes das artérias durante o ciclo cardíaco. Ela resulta da interação entre o débito cardíaco e a resistência vascular periférica, sendo expressa por dois valores em milímetros de mercúrio (mmHg): a pressão sistólica, correspondente ao pico de pressão durante a contração ventricular, e a pressão diastólica, correspondente à pressão mínima durante o relaxamento cardíaco.
A pressão arterial sistólica (PAS) reflete, predominantemente, o volume sistólico e a complacência das grandes artérias. A pressão arterial diastólica (PAD) é determinada principalmente pela resistência vascular periférica e pela frequência cardíaca. O resultado é convencionalmente expresso no formato PAS/PAD — por exemplo, 120/80 mmHg.
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é definida pelas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial 2020 como a presença de PAS ≥ 140 mmHg e/ou PAD ≥ 90 mmHg no consultório, confirmada em pelo menos duas aferições realizadas em ocasiões distintas, na ausência de uso de medicamentos anti-hipertensivos. Trata-se de uma condição crônica de alta prevalência — estimada em 23 a 25% da população adulta brasileira —, principal fator de risco modificável para doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e renais.
Representa o valor de pressão registrado durante a sístole ventricular, quando o coração ejeta sangue para a aorta. É o principal parâmetro de risco cardiovascular em pacientes acima de 50 anos.
≥ 140 mmHg limiar diagnóstico no consultório
Corresponde ao valor de pressão durante a diástole, quando o coração está em relaxamento. Reflete principalmente o tônus vascular periférico e é o principal parâmetro de risco em pacientes mais jovens.
≥ 90 mmHg limiar diagnóstico no consultório
As medidas de pressão arterial obtidas fora do ambiente clínico — por meio da Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) ou da Medida Residencial da Pressão Arterial (MRPA) — apresentam maior correlação com o risco cardiovascular e são consideradas o padrão de referência para confirmação diagnóstica, identificação de padrões específicos e avaliação da eficácia terapêutica.
Os pontos de corte utilizados para definir hipertensão fora do consultório são inferiores aos do consultório, pois a medição externas elimina o efeito do avental branco e captura a PA em condições mais representativas do cotidiano do paciente.
| Método | PAS (mmHg) | PAD (mmHg) | Indicação principal |
|---|---|---|---|
| Consultório / ambulatório | ≥ 140 | ≥ 90 | Triagem inicial; monitoramento de pacientes em tratamento. |
| MRPA (domicílio) | ≥ 130 | ≥ 80 | Confirmação diagnóstica; exclusão de hipertensão do avental branco; acompanhamento ambulatorial de longo prazo. |
| MAPA — média de vigília | ≥ 130 | ≥ 80 | Diagnóstico definitivo; avaliação do padrão circadiano da PA. |
| MAPA — média do sono | ≥ 110 | ≥ 65 | Identificação de hipertensão noturna; avaliação do padrão dipper/non-dipper. |
| MAPA — média de 24 horas | ≥ 125 | ≥ 75 | Avaliação global; melhor preditor de risco cardiovascular dentre os métodos ambulatoriais. |
PA elevada no consultório (≥ 140/90 mmHg) e normal fora dele (MAPA vigília < 130/80 mmHg; MRPA < 130/80 mmHg). Prevalência de 15 a 30% dos hipertensos diagnosticados em consulta. Associada a risco cardiovascular intermediário entre normotensos e hipertensos sustentados.
PA normal no consultório (< 140/90 mmHg) e elevada fora dele (MAPA vigília ≥ 130/80 mmHg; MRPA ≥ 130/80 mmHg). Prevalência estimada de 10 a 17% da população geral. Risco cardiovascular equivalente ao da hipertensão sustentada; subdiagnosticada na prática clínica.
Redução noturna da PA < 10% em relação à média diurna. Associado a maior risco de lesão de órgão-alvo (hipertrofia ventricular esquerda, nefropatia, acidente vascular cerebral). Identificado exclusivamente pela MAPA de 24 horas.
PA diurna normal com PA noturna elevada (sono ≥ 110/65 mmHg). Forma de hipertensão mascarada de risco cardiovascular elevado; mais frequente em pacientes com apneia obstrutiva do sono, diabetes e doença renal crônica.
A padronização da técnica de aferição é determinante para a confiabilidade dos valores obtidos. Erros sistemáticos — como o uso de manguito inadequado, posição incorreta do braço ou ausência de repouso prévio — podem resultar em diferenças de 5 a 10 mmHg na leitura, com impacto direto no diagnóstico e no manejo clínico.
Medir a PA em posição ortostática (após 1 e 3 minutos de pé) para detectar hipotensão ortostática, definida como queda ≥ 20 mmHg na PAS ou ≥ 10 mmHg na PAD.
Realizar a aferição preferencialmente no braço esquerdo, em decúbito lateral esquerdo ou sentada, a partir do segundo trimestre. Evitar a posição supina prolongada após a 20ª semana.
Quando não houver manguito de tamanho adequado para o braço, pode-se utilizar o manguito no antebraço, com palpação do pulso radial; os valores obtidos diferem dos braquiais e devem ser interpretados com cautela.
A hipertensão arterial tem etiologia multifatorial. Os fatores de risco abaixo são identificados pelas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial 2020 como os de maior relevância epidemiológica no contexto brasileiro. A presença de múltiplos fatores exige estratificação do risco cardiovascular global, que orienta a intensidade do tratamento.
Risco aumenta progressivamente após os 45 anos em homens e 55 anos em mulheres, em função da perda de elasticidade vascular e da disfunção endotelial cumulativa.
IMC ≥ 25 kg/m² correlaciona-se com hiperinsulinemia, ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona e aumento do débito cardíaco. Para cada 1 kg/m² de aumento do IMC, a PAS eleva-se cerca de 1 mmHg.
Atividade aeróbia regular reduz a PA sistólica em 4 a 9 mmHg em hipertensos. A inatividade física (< 150 min/semana de atividade moderada) é fator de risco independente.
A Organização Mundial da Saúde recomenda ingestão < 2 g de sódio/dia (equivalente a 5 g de sal). O brasileiro consome, em média, 9 g de sal/dia. A redução de 5 g/dia diminui a PAS em cerca de 3 mmHg.
Cada cigarro eleva transitoriamente a PA por 15 a 30 minutos. O tabagismo crônico causa disfunção endotelial, remodelamento vascular e amplifica o risco cardiovascular em todas as faixas pressóricas.
Parentes de primeiro grau com HAS dobram o risco individual. A herdabilidade da pressão arterial é estimada entre 30 e 50%. A presença de hipertensão familiar precoce (homens < 55 anos, mulheres < 65 anos) é sinal de alerta.
Hiperinsulinemia, resistência à insulina e disfunção endotelial contribuem para a hipertensão. Cerca de 75% dos diabéticos tipo 2 apresentam HAS concomitante. O controle pressórico rigoroso (< 130/80 mmHg) é essencial para a nefroproteção.
O consumo habitual > 30 g de etanol/dia (aproximadamente 2 doses) em homens e > 15 g/dia em mulheres associa-se a elevação da PA sistólica. A redução do consumo pode diminuir a PAS em 2 a 4 mmHg.